FILTRO SOLAR - RISCOS MAIORES QUE BENEFÍCIOS

Um estudo publicado pela  JAMA Network em 2019 causou enorme repercussão mundial ao demonstrar que vários filtros solares químicos eram absorvidos sistemicamente pela pele humana e alcançavam a corrente sanguínea em níveis acima do limite que a própria FDA utilizava como referência para exigir testes toxicológicos adicionais. 

Em 2020 e consolidado no debate científico até 2021, um estudo de seguimento ampliou os achados, incluindo mais ingredientes e confirmando a absorção persistente dessas substâncias.  

O protetor solar entra na corrente sanguínea? 

O estudo do JAMA que mudou o debate sobre filtros químicos.


Proteção ou Intoxicação 

Durante décadas, a maioria das pessoas acreditou que o protetor solar permanecia apenas na superfície da pele. Essa ideia sustentou a percepção de segurança dos filtros químicos usados em milhões de produtos ao redor do mundo. 


Mas em 2019, um estudo publicado na JAMA surpreendeu dermatologistas, toxicologistas e consumidores ao mostrar que diversos ingredientes de protetores solares químicos eram absorvidos pelo organismo em níveis mensuráveis.


A descoberta não significava automaticamente que os protetores solares eram perigosos. Porém, ela desmontava uma antiga premissa regulatória: a de que esses compostos praticamente não penetravam o corpo humano.


O experimento que chamou a atenção do mundo


O estudo conduzido por pesquisadores ligados à FDA avaliou voluntários saudáveis que aplicaram protetor solar em cerca de 75% da superfície corporal, quatro vezes ao dia, durante quatro dias. Os pesquisadores analisaram quatro ingredientes muito comuns em filtros solares químicos: avobenzona, oxibenzona (oxybenzone), octocrileno e ecamsule.


O resultado chamou atenção porque todos os ingredientes ultrapassaram rapidamente o limite plasmático de 0,5 ng/mL estabelecido pela FDA como ponto de corte para necessidade de estudos toxicológicos adicionais. Alguns compostos permaneceram detectáveis por dias após o fim da aplicação. (JAMA Network)


A oxibenzona apresentou níveis particularmente elevados, muito acima do limiar regulatório. Isso gerou enorme repercussão porque esse composto já vinha sendo discutido em pesquisas sobre possível atividade hormonal e impacto ambiental em recifes de coral.


A confirmação em estudos posteriores


Em 2020, outro estudo publicado também na JAMA ampliou a investigação. Dessa vez, seis ingredientes foram avaliados: avobenzona, oxibenzona, octocrileno, homosalato, octisalato e octinoxato.


Novamente, todos apresentaram absorção sistêmica significativa. Os pesquisadores observaram que as substâncias permaneciam detectáveis no plasma por vários dias após o uso contínuo do produto. (JAMA Network)


Até 2021, o consenso científico já reconhecia que a absorção cutânea dos filtros químicos realmente ocorre. O debate então deixou de ser “eles entram no organismo?” e passou a ser “quais são as consequências clínicas dessa exposição crônica?”.


Absorção não significa toxicidade


Esse talvez tenha sido o ponto mais mal compreendido pela população.


Os próprios autores dos estudos enfatizaram que detectar substâncias no sangue não significa automaticamente que elas causam dano. O estudo não demonstrou câncer, infertilidade ou doença hormonal em humanos. Ele demonstrou apenas absorção sistêmica. (Harvard Health)


Mesmo assim, a descoberta foi suficiente para levantar preocupações importantes porque muitos desses filtros químicos são usados diariamente, durante anos, desde a infância.


Além disso, alguns compostos já vinham sendo investigados anteriormente por possível atividade endócrina em modelos experimentais e estudos laboratoriais.


Por que a oxibenzona se tornou tão controversa?


Entre todos os ingredientes estudados, a oxibenzona tornou-se um dos focos principais da discussão científica.


Pesquisas experimentais sugeriram que ela poderia apresentar atividade estrogênica fraca, interferindo parcialmente em vias hormonais em modelos animais e celulares. Outros estudos discutiram possível relação com alergias cutâneas e estresse oxidativo. (Allure)


Além das preocupações humanas, a substância também foi associada a danos ambientais em recifes de coral, levando algumas regiões turísticas a restringirem produtos contendo oxibenzona e octinoxato.


A resposta da FDA e dos dermatologistas


Após os estudos, a FDA afirmou que precisava de mais dados de segurança para vários filtros químicos usados nos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, a agência reforçou que a população não deveria abandonar o uso de protetor solar. (Publicações ACS)


Isso ocorreu porque os riscos conhecidos da radiação ultravioleta continuam extremamente bem documentados:

— câncer de pele,

— envelhecimento precoce,

— dano ao DNA,

— imunossupressão cutânea,

— melanoma.


Em outras palavras, os efeitos nocivos da radiação solar permanecem muito mais comprovados do que os possíveis danos clínicos dos filtros absorvidos.


Mas isso pode ser controlado através dos horários de exposição ao sol. Tomar sol é saudável desde que se controle o tempo de exposição e os horários dessa exposição. Os benefícios de se expor ao sol são enormes.


Mineral versus químico: por que essa discussão cresceu?


Os estudos aumentaram muito o interesse pelos chamados protetores minerais ou físicos, especialmente aqueles contendo:

— óxido de zinco,

— dióxido de titânio.


Esses filtros funcionam principalmente refletindo e dispersando parte da radiação UV e apresentam absorção sistêmica muito menor.


Por isso, muitos consumidores passaram a preferir protetores minerais, especialmente:

— gestantes,

— crianças pequenas,

— pessoas com pele sensível,

— indivíduos preocupados com exposição crônica química.


Ao mesmo tempo, os filtros químicos continuam sendo muito utilizados porque costumam apresentar:

— textura mais leve,

— melhor espalhabilidade,

— menos resíduo branco,

— maior aceitação cosmética.


O verdadeiro cenário científico até hoje


Até 2025, a ciência ainda não demonstrou de forma definitiva que os filtros solares químicos causam doenças graves em humanos nas doses habituais de uso. Porém, os estudos da JAMA mudaram profundamente o paradigma regulatório e científico.


Hoje, já não se assume automaticamente que essas substâncias permanecem apenas na superfície da pele. A absorção sistêmica tornou-se um fato estabelecido.


A discussão atual gira em torno de:

— exposição crônica ao longo da vida,

— efeitos cumulativos,

— impacto hormonal potencial,

— segurança em crianças e gestantes,

— toxicologia de longo prazo,

— combinação de múltiplos compostos químicos.


Enquanto novas pesquisas continuam, muitos especialistas adotam uma posição equilibrada: continuar protegendo-se do sol, mas preferindo fórmulas mais modernas, evitando exposição excessiva e considerando filtros minerais quando apropriado.


No fim, o estudo da JAMA não “provou que protetor solar faz mal”. O que ele fez foi algo talvez ainda mais importante: mostrou que a ciência precisava olhar com muito mais profundidade para substâncias usadas diariamente por bilhões de pessoas.


No entanto toda a discussão abre os olhos da população para estar atenta aos riscos desses produtos industrializados e sermos inteligentes nos cuidados com a saúde. Proteger a pele e ao mesmo tempo buscar os benefícios do sol é o desafio a ser alcançado.


Principais fontes científicas:  JAMA 2019 – estudo original de absorção sistêmica;  JAMA 2020 – estudo ampliado de seguimento;  PubMed – estudo 2019;  PubMed – estudo 2020;  Harvard Health – análise clínica do estudo;  TIME – revisão regulatória e científica sobre segurança dos filtros químicos.

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