O PERIGO DOS PERFUMES E COSMÉTICOS

Perfumes e cosméticos podem afetar a saúde? O que revela uma das maiores revisões científicas de 2025

Durante décadas, perfumes e cosméticos foram vistos quase exclusivamente como produtos voltados à higiene, à beleza e ao bem-estar. Entretanto, a rápida expansão da indústria cosmética trouxe consigo um aumento sem precedentes da exposição humana a centenas de compostos sintéticos aplicados diariamente sobre a pele, cabelos e mucosas. 

Em 2025, uma ampla revisão publicada na revista Frontiers in Toxicology reuniu vinte anos de pesquisas para responder a uma pergunta cada vez mais relevante: qual é o impacto desses produtos sobre a saúde humana?

A revisão, intitulada The Impact of Perfumes and Cosmetic Products on Human Health: A Narrative Review, analisou estudos publicados entre 2005 e 2025 nas áreas de toxicologia, dermatologia, endocrinologia, epidemiologia e saúde ambiental. 

Seu objetivo foi sintetizar as evidências sobre os principais riscos relacionados ao uso contínuo de perfumes e cosméticos, abordando fertilidade, sistema respiratório, alergias, câncer, alterações hormonais, efeitos neurológicos e contaminação por metais pesados (Alblooshi, Frontiers in Toxicology, 2025). (Frontiers)

A exposição diária é muito maior do que a maioria das pessoas imagina

A primeira conclusão da revisão é que perfumes e cosméticos deixaram de representar exposições ocasionais. Atualmente, grande parte da população utiliza diariamente diversos produtos de higiene e beleza, incluindo perfumes, desodorantes, cremes hidratantes, maquiagens, protetores solares, shampoos, condicionadores e sabonetes líquidos.

Embora cada produto isoladamente contenha concentrações regulamentadas de seus ingredientes, a revisão destaca que o consumidor moderno está exposto simultaneamente a dezenas ou centenas de compostos químicos todos os dias. 

Esse fenômeno, conhecido como exposição cumulativa, ainda é insuficientemente considerado pelos modelos tradicionais de avaliação toxicológica, que normalmente analisam cada substância de forma isolada. Os autores defendem que compreender os efeitos da mistura de ingredientes representa um dos maiores desafios da toxicologia contemporânea. (Frontiers)

Ftalatos e parabenos permanecem entre os ingredientes de maior preocupação

Entre todas as substâncias avaliadas, os ftalatos e os parabenos aparecem como dois dos grupos químicos mais frequentemente associados a potenciais efeitos adversos.

Os ftalatos são utilizados principalmente como fixadores de fragrâncias, enquanto os parabenos atuam como conservantes. Segundo a revisão, ambos pertencem ao grupo dos chamados desreguladores endócrinos, compostos capazes de interferir na ação normal dos hormônios do organismo.

Os autores resumem evidências experimentais, epidemiológicas e mecanísticas indicando que a exposição crônica a esses compostos pode alterar vias hormonais relacionadas ao estrogênio, testosterona, hormônios tireoidianos e metabolismo energético. 

Embora a magnitude do risco individual ainda dependa da dose, da suscetibilidade genética e do padrão de exposição, a revisão conclui que existe base científica suficiente para justificar uma abordagem preventiva, especialmente em gestantes, adolescentes e indivíduos com doenças endócrinas. (Frontiers)

A fertilidade pode ser uma das áreas mais sensíveis

Uma das seções mais extensas da revisão aborda os possíveis efeitos reprodutivos dos ingredientes cosméticos.

Os autores destacam que diferentes estudos apontam associações entre exposição prolongada a determinados desreguladores endócrinos presentes em cosméticos e alterações na fertilidade masculina e feminina, desenvolvimento fetal e função reprodutiva.

A revisão enfatiza que esses efeitos não decorrem necessariamente de um único produto, mas da exposição repetida durante anos, somada a outras fontes ambientais dos mesmos compostos. Essa observação reforça a importância da avaliação do chamado “efeito combinado”, ainda pouco explorado pela regulamentação atual. (Frontiers)

Perfumes podem afetar também o sistema respiratório

Outra conclusão importante refere-se aos compostos orgânicos voláteis (VOCs) presentes principalmente em perfumes e fragrâncias.

Segundo a revisão, esses compostos podem contribuir para irritação das vias aéreas, exacerbação de asma, desconforto respiratório e piora de doenças pulmonares em indivíduos suscetíveis.

Os grupos considerados mais vulneráveis incluem:

  • crianças;
  • idosos;
  • portadores de asma;
  • pacientes com DPOC;
  • trabalhadores expostos continuamente a perfumes e produtos cosméticos.

Os autores defendem maior incentivo ao desenvolvimento de fragrâncias com menor emissão de VOCs, além da melhoria da ventilação em ambientes ocupacionais. (Frontiers)

As alergias continuam sendo uma das complicações mais frequentes

Entre todos os efeitos adversos associados aos cosméticos, a dermatite de contato permanece um dos mais bem documentados.

A revisão descreve que fragrâncias, conservantes, corantes e diversos ingredientes presentes em cosméticos podem desencadear reações alérgicas cutâneas.

Em muitos pacientes, os sintomas surgem apenas entre 24 e 72 horas após a exposição, dificultando a identificação do produto responsável.

Os autores ressaltam que o teste de contato (“patch test”) continua sendo o padrão-ouro para o diagnóstico dessas alergias e que produtos rotulados como “hipoalergênicos” reduzem, mas não eliminam completamente o risco de sensibilização. (Frontiers)

Alguns cosméticos ainda apresentam contaminação por metais pesados

Uma das preocupações destacadas pela revisão é a presença de metais pesados em determinados produtos cosméticos.

Mercúrio, chumbo, cádmio, níquel, cromo e outros metais foram identificados em diferentes estudos, principalmente em produtos comercializados com fiscalização limitada.

Segundo os autores, esses contaminantes podem representar riscos cumulativos ao sistema nervoso, rins, fígado e sistema reprodutivo quando presentes acima dos limites regulamentares.

Embora muitos países possuam normas específicas para controlar esses contaminantes, a revisão destaca que produtos importados informalmente ou fabricados sem controle adequado continuam representando motivo de preocupação. (Frontiers)

A relação com câncer ainda exige cautela científica

O artigo também analisa estudos que investigaram possíveis relações entre alguns ingredientes cosméticos e risco de câncer.

Os autores observam que determinadas substâncias, como alguns parabenos e compostos com atividade estrogênica, têm sido investigadas quanto ao seu potencial envolvimento em processos carcinogênicos.

Entretanto, a revisão ressalta que as evidências atualmente disponíveis ainda não permitem afirmar uma relação causal para a maioria dos cosméticos utilizados dentro das regulamentações vigentes.

Em vez disso, os pesquisadores defendem que novos estudos longitudinais são necessários para esclarecer os possíveis efeitos da exposição contínua durante décadas. (Frontiers)

A transparência dos rótulos ainda é insuficiente

Uma crítica recorrente feita pelos autores diz respeito à dificuldade enfrentada pelos consumidores para identificar todos os ingredientes presentes nos produtos.

Em especial, fragrâncias podem representar misturas complexas contendo dezenas ou centenas de compostos individuais, frequentemente protegidos como segredo comercial.

Segundo a revisão, essa limitação dificulta tanto a avaliação científica quanto o diagnóstico clínico de reações adversas.

Os autores defendem maior transparência na rotulagem e melhor divulgação das substâncias efetivamente utilizadas em perfumes e cosméticos. (Frontiers)

Os grupos vulneráveis merecem atenção especial

Outro ponto enfatizado ao longo da revisão é que os riscos não são iguais para toda a população.

Gestantes, crianças, adolescentes em desenvolvimento puberal, pessoas com predisposição genética, pacientes com doenças respiratórias e indivíduos com distúrbios endócrinos podem apresentar maior sensibilidade biológica aos ingredientes presentes em cosméticos.

Por isso, os autores sugerem que futuras avaliações de segurança passem a considerar essas populações separadamente, em vez de utilizar apenas estimativas para adultos saudáveis. (Frontiers)

A principal recomendação

Entre as principais recomendações estão a adoção de avaliações pré-comercialização mais rigorosas, vigilância pós-comercialização contínua, incentivo à química verde, redução do uso de compostos com atividade estrogênica, melhor transparência na rotulagem e mais pesquisas sobre os efeitos da exposição crônica a múltiplos ingredientes.

Segundo os autores, a toxicologia moderna precisa abandonar a ideia de avaliar apenas substâncias isoladas e passar a investigar o impacto real da combinação de compostos utilizada diariamente por milhões de pessoas. Somente dessa forma será possível conciliar inovação, segurança e proteção da saúde pública. (Alblooshi, Frontiers in Toxicology, 2025). (Frontiers)