No entanto, um estudo publicado em 2011 no periódico The Lancet trouxe uma nova perspectiva para o debate ao sugerir que, em parte das crianças diagnosticadas com TDAH, fatores alimentares poderiam exercer influência significativa sobre a intensidade dos sintomas.
O trabalho ficou conhecido internacionalmente como estudo INCA (Impact of Nutrition on Children with ADHD) e continua sendo uma das pesquisas mais citadas quando o assunto é a relação entre alimentação e comportamento. Fonte: Pelsser et al., The Lancet, 2011.
A Descoberta que Surpreendeu os Pesquisadores
A principal conclusão do estudo foi que uma parcela considerável das crianças avaliadas apresentou melhora substancial dos sintomas após uma intervenção alimentar rigorosa. Segundo os autores, aproximadamente dois terços das crianças submetidas à dieta experimental demonstraram redução clinicamente significativa da hiperatividade, impulsividade e desatenção. Fonte: Pelsser et al., The Lancet, 2011.
Esse resultado chamou a atenção porque a melhora observada não foi pequena nem marginal. Os pesquisadores concluíram que, para um grupo específico de crianças, a alimentação parecia exercer um papel relevante na manifestação dos sintomas comportamentais. A descoberta levou os autores a sugerirem que fatores dietéticos poderiam estar envolvidos em mecanismos ainda pouco compreendidos do transtorno.
A Reintrodução dos Alimentos Trouxe Novas Evidências
Uma das observações mais importantes do estudo ocorreu após a fase inicial da intervenção. Quando determinados alimentos foram gradualmente reintroduzidos na dieta das crianças que haviam melhorado, muitos dos sintomas voltaram a se intensificar. Segundo os pesquisadores, esse achado fortaleceu a hipótese de que alguns componentes alimentares poderiam atuar como desencadeadores ou agravantes dos sintomas em indivíduos suscetíveis. Fonte: Pelsser et al., The Lancet, 2011.
Os autores concluíram que a resposta observada não parecia ser fruto do acaso. A recorrência dos sintomas após a reintrodução alimentar sugeriu que certos fatores dietéticos possuíam relação direta com o comportamento das crianças que responderam à intervenção.
O que os resultados sugerem é que existe um subgrupo de pacientes cujos sintomas parecem ser particularmente sensíveis à alimentação. Nesses casos, determinados alimentos ou componentes alimentares podem atuar como fatores agravantes, aumentando a intensidade das manifestações comportamentais.
O Que Pesquisas Posteriores Descobriram
Nos anos seguintes, diversas revisões científicas passaram a investigar os possíveis mecanismos envolvidos nessa relação. Estudos posteriores encontraram evidências de que alguns corantes artificiais, conservantes e aditivos alimentares podem exacerbar sintomas de hiperatividade em indivíduos sensíveis. Outras pesquisas observaram que padrões alimentares caracterizados pelo elevado consumo de alimentos ultraprocessados tendem a estar associados a maior frequência de sintomas relacionados ao TDAH. Fontes: Revisões publicadas em Nutritional Neuroscience e estudos epidemiológicos recentes da Revista de Saúde Pública.
Esses trabalhos não demonstram causalidade direta, mas reforçam a hipótese de que a qualidade da alimentação pode influenciar o funcionamento cerebral e o comportamento em determinadas circunstâncias.
Uma Nova Forma de Enxergar o TDAH
O legado mais importante do estudo publicado no Lancet talvez não tenha sido oferecer uma resposta definitiva, mas abrir uma nova linha de investigação científica. Os resultados mostraram que a alimentação merece ser considerada como um possível fator modificador dos sintomas em algumas crianças com TDAH.
Hoje, mais de uma década após sua publicação, o consenso científico continua reconhecendo o TDAH como um transtorno neurobiológico complexo. Entretanto, também se tornou cada vez mais evidente que fatores ambientais, incluindo a alimentação, podem influenciar a intensidade dos sintomas em parte dos pacientes.
A principal mensagem do estudo permanece atual: embora a alimentação não explique todos os casos de TDAH, ela pode representar uma peça importante do quebra-cabeça para algumas crianças. E essa possibilidade continua motivando novas pesquisas sobre o impacto dos alimentos, aditivos e padrões alimentares no funcionamento do cérebro em desenvolvimento.
Fontes
Pelsser LM et al. Effects of a Restricted Elimination Diet on the Behaviour of Children with Attention-Deficit Hyperactivity Disorder (INCA Study). The Lancet, 2011.
Pelsser LM et al. Diet and ADHD: Reviewing the Evidence. Publicações subsequentes sobre o estudo INCA.
Revisões recentes em Nutritional Neuroscience sobre aditivos alimentares e TDAH.
Estudos epidemiológicos sobre ultraprocessados e sintomas de TDAH publicados na Revista de Saúde Pública.
