Compostos Tóxicos em Tecidos Sintéticos Esportivos

 

A Nova Fronteira da Toxicologia: As Roupas do Dia a Dia

Durante décadas, a discussão sobre exposição a substâncias químicas concentrou-se em alimentos, embalagens, cosméticos e poluição ambiental. 

Nos últimos anos, porém, uma nova área de pesquisa começou a ganhar destaque: a composição química das roupas que usamos diariamente. Cientistas passaram a investigar se tecidos sintéticos podem atuar como fontes contínuas de exposição a compostos potencialmente tóxicos, especialmente quando permanecem em contato direto com a pele por muitas horas.

Os resultados dessas pesquisas vêm chamando atenção porque mostram que algumas peças de vestuário podem conter substâncias associadas à desregulação hormonal, persistência ambiental e exposição cumulativa de longo prazo.

O Estudo que Encontrou Bisfenóis em Roupas Convencionais e Recicladas

Uma das investigações mais detalhadas foi publicada em 2024 na revista Environmental Science and Pollution Research. No estudo intitulado “Bisphenols in Daily Clothes from Conventional and Recycled Material: Evaluation of Dermal Exposure to Potentially Toxic Substances”, os pesquisadores da Universidade de Química e Tecnologia de Praga analisaram cinquenta e sete amostras de roupas produzidas com materiais convencionais e reciclados.

O objetivo era verificar a presença de bisfenóis, uma família de compostos químicos amplamente conhecida pelo BPA (Bisfenol A), utilizado historicamente em plásticos e associado a possíveis efeitos endócrinos. Os pesquisadores encontraram BPA, BPS, BPF e outros bisfenóis em diversas amostras de tecidos. O BPA foi o composto detectado com maior frequência.

Os autores concluíram que as roupas representam uma via real de exposição dérmica a bisfenóis. Embora as estimativas de absorção calculadas no estudo permaneçam abaixo dos limites toxicológicos atualmente estabelecidos pelas agências regulatórias, os pesquisadores destacaram que ainda existem incertezas sobre os efeitos da exposição contínua ao longo de décadas, especialmente quando múltiplas fontes de contato são consideradas simultaneamente.

Outro resultado importante foi a observação de que sucessivas lavagens reduzem significativamente a concentração de parte desses compostos presentes nos tecidos.

Quando o BPA Foi Encontrado em Roupas Esportivas

A discussão ganhou repercussão internacional após uma investigação conduzida pelo Center for Environmental Health (CEH), nos Estados Unidos. Os pesquisadores analisaram trinta e três peças de roupas esportivas produzidas principalmente com poliéster, nylon e elastano, materiais amplamente utilizados em leggings, tops esportivos, shorts e camisetas de alta performance.

Os testes laboratoriais identificaram BPA em diversas peças comercializadas por marcas conhecidas do mercado esportivo. A preocupação levantada pelo estudo não se limitava à presença do composto, mas ao contexto de uso dessas roupas. 

Durante atividades físicas, o aumento da temperatura corporal, a intensa sudorese e o contato prolongado com a pele poderiam favorecer a migração química do tecido para a superfície cutânea.

O estudo não mediu diretamente a absorção humana do BPA, mas os autores argumentaram que a combinação de calor, umidade e atrito merece investigação adicional. A pesquisa ajudou a ampliar o debate sobre a necessidade de avaliar roupas da mesma forma que já se avaliam embalagens alimentares e produtos de higiene pessoal.

Os “Forever Chemicals” Encontrados em Tecidos

Outra linha importante de investigação vem sendo conduzida pela Universidade de Notre Dame, nos Estados Unidos. O grupo liderado pelo pesquisador Graham Peaslee tornou-se uma referência mundial na detecção de PFAS, conhecidos popularmente como “forever chemicals”.

Os PFAS são compostos fluorados utilizados para conferir resistência à água, repelência a manchas e durabilidade aos tecidos. O problema é que essas substâncias são extremamente persistentes no ambiente e podem permanecer por muitos anos no organismo humano.

As pesquisas da Universidade de Notre Dame encontraram PFAS em uniformes escolares, roupas esportivas, leggings, sutiãs esportivos e diversos tecidos tratados com tecnologias impermeabilizantes. 

Os pesquisadores observaram que essas substâncias podem representar uma fonte de exposição tanto pelo contato direto com a pele quanto pela liberação para a poeira doméstica e para o ambiente durante as lavagens.

Os autores destacaram que a preocupação não está apenas no uso individual da roupa, mas no acúmulo ambiental contínuo desses compostos ao longo do tempo.

O Papel do Suor na Exposição Química

Uma das descobertas mais relevantes das pesquisas recentes envolve a interação entre suor e tecidos sintéticos. Diversos estudos mostram que a umidade, o calor corporal e a composição química do suor podem aumentar a liberação de determinadas substâncias presentes nas fibras têxteis.

Esse fenômeno é particularmente importante em roupas esportivas, pois elas permanecem aderidas ao corpo justamente durante períodos de intensa transpiração. Embora ainda não exista consenso sobre a quantidade efetivamente absorvida pela pele, os pesquisadores consideram biologicamente plausível que o suor facilite a transferência de alguns compostos químicos dos tecidos para o organismo.

Essa hipótese tem motivado novos estudos sobre exposição dérmica crônica e seus possíveis efeitos hormonais, metabólicos e imunológicos.

O Que a Ciência Sabe Até Agora

O uso de roupas sintéticas causa doenças específicas em indivíduos saudáveis. O que já está claramente demonstrado é a presença de BPA, outros bisfenóis e PFAS em parte das roupas disponíveis no mercado.

Os trabalhos conduzidos pela Universidade de Química e Tecnologia de Praga, pelo Center for Environmental Health e pela Universidade de Notre Dame convergem em um ponto fundamental: os tecidos modernos não são compostos apenas por fibras têxteis. 

Eles carregam uma complexa combinação de corantes, estabilizantes, plastificantes, impermeabilizantes e aditivos químicos cuja interação com o organismo humano ainda está sendo estudada.

A principal conclusão dessas pesquisas é que as roupas sintéticas sejam perigosas, e que a composição química dos tecidos merece o mesmo nível de atenção científica já dedicado a alimentos, cosméticos e embalagens. 

No caso específico da cor preta, alguns especialistas em química têxtil observam que tons escuros costumam exigir mais corantes, mais estabilizantes; mais auxiliares de tingimento; em alguns processos, traços de metais utilizados para fixação da cor.

Isso explica por que elas frequentemente recebem atenção especial em estudos de segurança química têxtil. 

Em um mundo onde passamos praticamente vinte e quatro horas por dia em contato com tecidos, compreender o que realmente está presente nas roupas tornou-se uma nova e importante fronteira da saúde ambiental.

Principais fontes científicas citadas no artigo:

  • Jurikova et al. (2024), Bisphenols in Daily Clothes from Conventional and Recycled Material: Evaluation of Dermal Exposure to Potentially Toxic Substances, Environmental Science and Pollution Research.
  • Center for Environmental Health (CEH), investigação laboratorial sobre BPA em 33 peças de roupas esportivas (2022–2023).
  • Graham Peaslee e colaboradores, University of Notre Dame, estudos sobre PFAS em uniformes escolares, roupas esportivas e tecidos tratados.
  • Revisões toxicológicas recentes sobre exposição dérmica a bisfenóis e PFAS em produtos têxteis publicadas entre 2022 e 2024.

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