A orientação - "O pecado do comer intemperante, do comer com demasiada freqüência, do comer demais e alimentos ricos e não saudáveis, destrói a saudável ação dos órgãos digestivos, afeta o cérebro, perverte o juízo, impedindo o pensamento e a ação racionais, calmos, saudáveis". CRA 50.1. É hoje confirmada pela ciência da saúde.
Os alimentos sustentam o nosso cérebro de diversas formas, para que ele desempenhe muitas funções importantes, como a memória e a concentração. E uma alimentação equilibrada também pode ser um auxílio poderoso para a nossa saúde mental.
Quais são os efeitos imediatos ao cérebro do consumo de
refeições fartas? O que acontece quando comemos demais?
Quando estamos comendo, diversos sinais em todo o nosso
corpo trabalham em conjunto para que o nosso cérebro saiba que estamos
satisfeitos.
Estes sinais incluem os enviados pelos hormônios liberados
no intestino e os metabólitos (as moléculas que decompõem os alimentos para
gerar energia).
Estes hormônios também sinalizam a liberação de insulina
pelo pâncreas, para controlar nossos níveis de açúcar. Todo este processo é
chamado de "cascata da saciedade".
"Estes sinais vêm de diferentes partes do nosso
intestino e trabalham em períodos de tempo levemente diferentes", explica
o professor e endocrinologista clínico Tony Goldstone, do Imperial College de
Londres.
Esta cascata de hormônios liberada pelo intestino e pelo
pâncreas e o envio de sinais para o cérebro também podem ter alguma relação com
o sono que sentimos após uma grande refeição (a chamada "sonolência
pós-prandial").
Mas os mecanismos exatos responsáveis por este processo
ainda não são bem conhecidos, segundo o professor Aaron Hengist, pesquisador
visitante dos Institutos Nacionais de Saúde em Washington, nos Estados Unidos.
De forma geral, acredita-se que esta sensação (apelidada de
"coma alimentar"), em grande parte, é o efeito do sangue sendo
transportado do cérebro para o estômago. Mas pesquisas indicam que o fluxo
sanguíneo, na verdade, não diminui após uma grande refeição.
São necessárias mais pesquisas para compreender o sono após
as refeições, segundo Hengist. "A reação dos hormônios intestinais é um
coquetel", segundo ele. "Não sabemos quais hormônios específicos
podem causar o sono em quais centros do cérebro."
Comer demais e perigoso?
Surpreendentemente, comer demais esporadicamente tem pouco
efeito sobre o nosso metabolismo, segundo Hengist.
Em 2020, ele publicou os resultados de um estudo que
examinou o que acontece quando as pessoas comem além da quantidade necessária
para ficarem confortavelmente satisfeitas e quando comem até ficarem a ponto de
explodir.
Para a realização do estudo, 14 homens saudáveis (e muito
corajosos) se voluntariaram para comer uma grande quantidade de pizza em uma
única refeição.
Em uma visita, os pesquisadores pediram que eles comessem até ficarem confortavelmente satisfeitos. E, em outra, que comessem o máximo que pudessem. Nesta segunda ocasião, eles comeram o dobro da quantidade de pizza consumida na primeira vez.
Os pesquisadores avaliaram seus níveis de hormônios,
apetite, humor e reações metabólicas por quatro horas após os dois banquetes.
Eles concluíram que os níveis de açúcar no sangue não eram superiores aos
encontrados após uma refeição normal, nem a quantidade de gordura no sangue.
"Ficamos surpresos ao perceber que, apesar do dobro da
ingestão de energia, o corpo regulou o açúcar do sangue muito bem", afirma
Hengist. "Descobrimos que o corpo trabalhou muito para conseguir isso,
secretando mais insulina e diversos hormônios do intestino, que ajudam a
liberar insulina e sinalizar que estamos satisfeitos." Ele explica que
este estudo demonstra que uma indulgência isolada não é tão perigosa como
poderíamos imaginar.
Mas, como o estudo só envolveu homens jovens saudáveis, não
é possível extrapolar a pesquisa para a população em geral, sem estudar as
mulheres e pessoas obesas ou acima do peso, segundo Hengist.
Como nós comemos demais faz diferença?
Uma sessão comendo pizza pode não causar prejuízos
imediatos, mas pesquisas demonstram que comer por várias horas ou um dia
inteiro de banquete podem começar a prejudicar o metabolismo e exercer tensão
pelo corpo — o que, por sua vez, pode afetar o cérebro.
Em 2021, um estudo examinou pessoas que comeram demais por
um período prolongado e encontrou resultados muito diferentes da pesquisa de
Hengist com a pizza. Ele foi inspirado na tradição norte-americana de promover
festas antes de competições esportivas, onde as pessoas comem muito e bebem
álcool.
Os pesquisadores tentaram reproduzir esta tradição,
oferecendo bebidas alcoólicas e alimentos com alto teor de açúcar e gordura
(como hambúrgueres, batatas fritas e bolo) a 18 homens saudáveis, mas acima do
peso, para que eles passassem uma tarde consumindo.
Eles comeram, em média, 5.087 calorias ao longo de cinco
horas. Exames de sangue e de imagem do fígado revelaram que a maioria deles
sofreu aumento do teor de gordura no fígado depois do banquete.
Pesquisas demonstram que a doença hepática gordurosa não
alcoólica pode reduzir a quantidade de oxigênio no cérebro e causar inflamações
dos tecidos cerebrais, o que pode aumentar o risco de doenças do cérebro ao
longo do tempo.
Alimentação com alto teor de gordura e açúcar pode causar
doença hepática gordurosa não alcoólica a longo prazo.
"O estudo mostra que os homens apresentaram
desregulação metabólica", explica Hengist. "Ao consumir passivamente
alimentos e álcool por várias horas, a tensão é grande demais para o corpo
suportar."
Por que uma grande refeição não nos afeta?
A fisiologia pode nos ajudar a compreender por que talvez não
seja tão perigoso comer demais isoladamente — e como o nosso cérebro e
intestino se comunica entre si quando precisamos nos alimentar.
Quando estamos com fome, muitos mecanismos entram em ação e
nos levam a comer, segundo Goldstone. Nosso humor, por exemplo, pode se alterar
e podemos nos sentir irritados e com fome. Também aumenta a nossa propensão a
desejar alimentos com alto teor energético.
"Não sabemos exatamente o que gera a irritação da
fome", explica Goldstone. "Mas pesquisas em andamento demonstram que
a fome é um estado bastante desagradável e, talvez, as pessoas comam para se
livrar dele."
Evidências de estudos com animais demonstram comportamento
parecido. Estudos destacam como parte do circuito do hipotálamo (uma parte do
cérebro que controla o apetite) é silenciada quando roedores veem e cheiram
alimentos, antes mesmo de começarem a comer.
"A fome fez com que eles procurassem comida e, quando a
encontram, esse comportamento não precisa continuar", afirma Goldstone.
Ele destaca que grande parte deste processo se passa no subconsciente. Os seres
humanos evoluíram para encontrar formas de lidar com a fome. Afinal, sem
comida, nós morremos.
Mas o excesso não aconteceu ao longo da história humana. E
seus efeitos ocorrem a longo prazo e são menos letais, pelo menos no curto
prazo, segundo Goldstone.
O que nós comemos demais faz diferença?
Diversos estudos realizados com ratos e camundongos indicam
que uma alimentação com alto teor de calorias a longo prazo pode afetar a
memória e as funções de aprendizado.
Mas, em seres humanos, existem menos pesquisas nesta área,
segundo Stephanie Kullmann, líder de grupo e chefe da divisão de neuroimagens
metabólicas da Universidade de Tübingen, na Alemanha.
Mas um estudo oferece algumas indicações sobre o que
acontece no nosso cérebro quando comemos alimentos com alto teor de açúcar e
gordura em quantidade excessiva. E suas descobertas poderiam ser aplicadas, até
certo ponto, a períodos mais curtos de alimentação em excesso, segundo
Kullmann.
Em um estudo, 18 homens saudáveis comeram uma dieta com alto
teor de calorias por cinco dias — especificamente, lanches ultraprocessados com
alto teor de açúcar e gordura — além da sua dieta normal.
Em média, eles comeram 1,2 mil kcal a mais por dia. Outros
11, em um grupo controle, não alteraram sua alimentação.
Os resultados demonstraram que a dieta com alto teor de
calorias afetou a reação do cérebro à insulina, em áreas que ajudam a reduzir
sua resposta às indicações visuais sobre alimentos e processos de memória.
O cérebro resistente à insulina não reduz adequadamente o
apetite e a ingestão de alimentos, sinais que nos orientam a parar de comer
quando estamos satisfeitos.
"Uma descoberta importante foi que o cérebro muda antes
do corpo", segundo Kullmann.
"Os participantes continuavam com o mesmo peso, mas,
quando observávamos o cérebro, víamos que eles estavam muito mais próximos de
uma pessoa obesa ou que estivesse acima do peso há alguns anos", explica
ela.
Pesquisas indicam que, em pessoas obesas, o hipotálamo e o
sistema de recompensas do cérebro (que ajudam a regular nossa ingestão de
alimentos) podem ser prejudicados.
Este estudo amplia as pesquisas existentes, segundo
Kullmann. Ele mostra a comunicação entre o intestino e o cérebro e demonstra
como o eixo é diferente nas pessoas obesas.
Especificamente, as pessoas obesas apresentam maior
propensão a escolher porções maiores de alimentos, quando pensam em prazer.
Os participantes do estudo de Kullmann foram orientados a
retomar sua alimentação normal após os cinco dias da pesquisa. Mas, uma semana
depois, novos testes demonstraram que a memória e as partes cognitivas do
cérebro ainda reagiam menos do que antes do início da dieta com teor de
calorias mais alto.
Então, podemos comer em excesso?
É conhecimento bem estabelecido que períodos prolongados de
alimentação (especialmente com alto teor de açúcar e gorduras saturadas) não
fazem bem para o cérebro. E, embora existam menos estudos observando os
impactos de um banquete isolado sobre o nosso corpo, as evidências existentes
sugerem que isso não é prejudicial para o cérebro.
"O nosso estudo mostra que uma indulgência isolada não é tão prejudicial como se poderia esperar", afirma Aaron Hengist. Mas ele destaca que ir além disso pode começar a criar tensão sobre o corpo.
Mesmo cinco dias podem ser suficientes para criar efeitos
duradouros sobre o cérebro, segundo as pesquisas de Stephanie Kullmann.
Fonte: BBC

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